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EXPERIÊNCIAS SÃO PESSOAS, NÃO LUGARES

Fabricio Greca Brun Fabricio Greca Brun 21 fevereiro, 2017
Experiências são pessoas

Se um dia você estiver perdido em Curitiba encarando aqueles mapas (que mais parecem origamis) de algum concierge, não se sinta mal, existem pessoas de olho em você prontas para ajudá-lo.

E essa pessoa pode ser eu. Andando pela cidade estou constantemente em alerta para algum sinal da Síndrome do Turista Perdido. É como se eu fosse um super-herói com um pequeno e limitado poder: posso te situar pelas ruas, apontar o ponto de ônibus mais próximo e te falar onde vende a comida de rua que não vai te intoxicar.

E muitos de nós querem ajudar. Não porque somos excepcionalmente bondosos (obrigado por achar isso), mas porque nos faz sentir como aquele morador mais confiável e indispensável: o especialista urbano. Talvez seja porque em viagens já precisei da orientação e boa vontade dessas pessoas locais que desejo ser um quando estou em casa.

Costumamos viajar para ver lugares mágicos e atemporais – Palácios indianos; Catedrais italianas; Reservas africanas. Para alguns lugares ainda é simplesmente emocionante ficar perto deles e sentir o poder de sua proximidade (Taj Mahal, digamos, ou Machu Picchu).

Entretanto, para a maior parte do mundo, apenas olhar não é o suficiente. Não é o suficiente para cortarmos os laços de nossas próprias vidas diárias. Precisamos nos conectar com outros. Buscamos o real – sentir que fomos realmente transportados para um certo lugar, ao invés do vago e confuso embaralhar dos aeroportos. Nos tornamos colecionadores de pessoas. Somos todos locais agora.

Mas o que é um local? Apenas viver em algum lugar não qualifica você para o trabalho. Ser um local requer mais conhecimento que saber ler um mapa (existem aplicativos que fazem isso). O tipo de local que queremos conhecer é alguém com uma visão sobre o lugar, uma história para contar, uma paixão ou conhecimento particular – todos apontados para onde estamos.

Eles são os taxistas do centro da cidade, vendedores ambulantes de cachorro quente, os melhores bartenders e tradutores da topografia estrangeira. Viciados em curiosidades e antropólogos sociais, perspicazes senhores de idade ou jovens vigorosos. Eles são o tipo de pessoa que você ficaria feliz em jogar um papo fora em qualquer lugar que seja. E te enriquecem mais que todos os museus e pontos históricos desses livros guias – eles são o porque você viajou até lá em primeiro lugar.

Pense em todas as pastas e hard drives cheios de todas as suas fotos de viagem que já tirou. Com que frequência você olha sua foto no cantinho do Coliseu? Ou aquele esplendido café-da-manhã no seu hotel em Paris? Nós podemos achar imagens de cartões postais em qualquer lugar, mas é o sentimento humano de escrever no lado de trás que nos chama.

As fotos que mais importam pra mim, que eu perco meu tempo olhando fixamente, tem como foco não lugares, mas pessoas. Amigos, família, estranhos que cruzaram meu caminho tempo suficiente para merecerem ser lembrados. Por mais legal que seja compartilhar memórias de viagem com pessoas do nosso círculo, há um sentimento especial reservado para aquelas que conhecemos ao longo de nossa jornada – uma combinação de excitação do novo, curiosidade sem o contato prolongado e o alívio de não se sentir perdido num lugar não-familiar, ou não ficar plantado com um livro ridículo num restaurante.

Quando penso em turistas visitando minha cidade, eu imagino quem eles irão conhecer aqui e como sua percepção da cidade será afetada por esses encontros. E novamente, invariavelmente, penso em todas as minhas peregrinações e moradores que conheci e influenciaram meu rumo. O casal de franceses que me recebeu como um neto por duas semanas e me levou a festivais e vinícolas; O garoto que me hospedou em sua casa na Letônia e me convidou para o aniversário do seu melhor amigo; O simpatissíssimo polonês que também me hospedou e trancou seu restaurante para jogar golfe comigo a tarde.

O que faz dessas conexões tão magicas é a extensão em que elas são imprevisíveis, impensáveis e irrepetíveis. Platônicas “one-night-stands” do viajante comprometido. E o mais incrível é que você não pode achar essas pessoas no Google, é tudo como antigamente – baseado em relacionamentos.

Fabricio Greca Brun

Fabricio Greca Brun

Com apenas 23 anos, Fabrício já rodou mais de 30 países em 1 ano que passou na Europa. Amante de viagens e cinéfilo de carteirinha já cursou desde Engenharia Civil até cinema. Após morar esse tempo fora escreveu dois diários de viagens que incluem histórias, desenhos e mensagens de pessoas que o cruzaram em sua jornada. Quando pode, gosta de dar dicas a seus amigos, e quem mais quiser, sobre viagens, música e filmes.

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